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segunda-feira, 24 de março de 2008

Fora da rede

Fora da cidade desde a última quinta-feira e, deliberadamente sem acesso a computador, não dei minha contribuição à rede blog, que na última sexta-feira enfocou a cultura no município. Vai, pois, agora, com atraso justificado, minha curta participação:

Museu da Viúva Porcina

No Centro da cidade há dois exemplos de abandono material de monumentos culturais do município: o velho casarão do Visconde de Araruama, onde seria o Museu de Campos e o prédio da Lira de Apollo, vítima de um incêncio no início dos anos 90.
O “museu” pode ser considerado uma espécie de “viúva Porcina, aquela que foi sem nunca ter sido”. Explico: na obra de Dias Gomes, a amante do coronel Sinhozinho Malta, Porcina, casa-se de araque com Roque, o santeiro da cidade, que é obrigado a fugir antes da consumação do casamento e é dado como morto. Assim é o “Museu de Campos”. Existe um prédio, em acelerado processo de deterioração e uma intenção anunciada por pelo menos seis prefeitos de implantar ali um museu sem que rigoradamente nada tendo feito por nenhum deles para tornar concreta a idéia.
É museu da viúva Porcina.
Enquanto isso, nos últimos anos pelo menos duas dezenas de belas casas (e até mansões) foram adquiridas em áreas nobres da cidade — especialmente nos sete anos do reinado Arnaldo/Ilsan —para abrigar órgãos municipais. Basta dar uma olhadinha na Beira-Valão, por exemplo, para ver as casas compradas pela sediar a Guarda Municipal, o Cidac e outras. Nas imediações do Jardim São Benedito foram tantas outras casas e assim como na Tenente Cardoso e adjacências. E nada de recursos para o "Museu". Dinheiro para shows, então, nem se fala...
Alexandre Mocaiber, que aprofundou a política de grandes shows (suspeitos de superfaturamento), diz que fez um museu, que na verdade não passa de um pequeno brechó. A prefeitura herdou uma casa de porte médio da família do usineiro Olavo Cardoso (Rua Sete de Setembro esquina com Rua do Gás) e adquiriu meia dúzia de objetos antigos que nada ou pouco tem a ver com a história de Campos e deu o nome de "Museu".
De Campos mesmo a gente encontra peças importantes, como moendas do século XVII no Museu do Açúcar, em Pernambuco e, até cocares dos índios goytacases podem ser vistos no Museu do Ypiranga, em São Paulo.
Enquanto em Campos...

domingo, 15 de setembro de 2013

"POPULISMO ALIENANTE"

 

Demitido após crítica revela como a Cultura de Campos é por dentro

O Museu Histórico de Campos serve “à realização de eventos espaçados e exposições políticas que inflam o ego da presidente” da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patricia Cordeiro. Essa agenda seria ditada com “muitos gritos e, quando há contrariedade, ameaçam”. O Arquivo Público Municipal “está em estado vegetativo”. O Museu Olavo de Carvalho “está fechado e a FCJOL fala em reforma”. A Biblioteca Municipal Nilo Peçanha, embora “entupida de ótimas ideias”, “não recebe investimentos”. E o Centro de Eventos Populares Osório Peixoto (Cepop), erguido ao custo de R$ 100 milhões dos cofres públicos municipais, está “entregue a feiras de automóveis”, usado apenas eventualmente para um “carnaval feio, onde escolas de samba do Rio cobram cachês ilógicos”. Se vista de fora a condução da cultura de Campos, centralizada pela prefeita Rosinha (PR) na FCJOL, já vinha sendo alvo de muitas críticas, como as que fizeram Artur Gomes (aqui), Adriano Moura (aqui), Deneval de Azevedo Filho (aqui), Arthur Soffiati (aqui), Cristina Lima (aqui), José Sisneiro (aqui), Antonio Roberto Kapi (aqui), Ricardo André Vasconcelos (aqui) e, mais recentemente, o petista Makhoul Moussallem (aqui) e vereador Rafael Diniz (aqui), também quem viu de dentro como as coisas funcionam, ou parecem não funcionar, guardou péssimas impressões. Gaúcho radicado na planície goitacá desde 2009, o escritor e historiógrafo Cristiano Pluhar trabalhou no Arquivo Público, onde publicou dois livros sobre a história do município, e ajudou a fundar o Museu de Campos, até ser desligado sem maiores explicações, em 2012, após ter feito um comentário considerado “deselegante”, nas redes sociais, à atuação de Patricia Cordeiro na presidência da FCJOL.


Folha Dois – Seu testemunho (aqui) sobre como funciona, ou não funciona, a estrutura municipal de cultura, causou impacto nas redes sociais. Por que resolveu trazer a público essas questões internas?
Cristiano Pluhar - Desde novembro de 2012, me afastei das atividades que desenvolvia no Museu Histórico de Campos dos Goytacazes. O posicionamento crítico se iniciou nesse período. Quem acompanha minha lida no site “Histórias dos Campos” ou a coluna “Histórias dos Campos dos Goytacazes”, no jornal virtual O Campista, comprova o fato, nada oportunista.
Folha – Logo no início do seu texto, você cita os questionamentos feitos na imprensa à cultura do município. Encontrou neles o meio propício para externar também suas críticas?
Cristiano - Como mencionei: não se trata de aproveitar de uma situação. A expansão do pensamento ocorreu, simplesmente, por interesse da sociedade cultural campista e também da mídia local.
Folha – Sinceramente, daria publicidade aos seus questionamentos sobre a estrutura pública da cultura municipal se não tivesse sido dela desligado? Como foram as circunstâncias da sua saída? Ela se deu mesmo por conta de um comentário no Facebook?
Cristiano - É clichê óbvio afirmar que “mamei na teta” do governo. A sociedade desconhece minha história nos Campos dos Goytacazes. Em abril de 2007, em uma comunidade do escritor Charles Bukowski, no “falecido” Orkut, conheci minha atual esposa. No mês de julho do ano seguinte passei três semanas na cidade e, entupido de amor, decidi que aqui residiria. Assim, no dia 20 de janeiro de 2009, me estabeleci. Enlouquecido, busquei diversas possibilidades trabalhistas. As “coisas” não aconteciam e meu retorno ao Rio Grande do Sul se aproximava. Um dia, fui ao Palácio da Cultura no intuito de dialogar com algum membro da secretaria municipal de Cultura. Para minha surpresa, o órgão, naquele momento, estava alocado no Teatro Trianon. Desconhecia o trajeto até o local. Uma guarda municipal, solícita, me indicou o caminho e mencionou a existência da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima. Ela me levou até a secretária do presidente, na época, Avelino Ferreira, e consegui agendar uma conversa com o mesmo. Perdi algumas viagens por conta dos compromissos do presidente da FCJOL. Até que, num final de tarde, conversamos por mais de duas horas. Desde maio de 2001, trabalho com pesquisas em História. Na época, meu currículo carregava uma publicação, como coautor, sobre a ferrovia no município de Santa Maria, região central do RS, intitulado “Memória Cidadã: Vila Belga”, de 2002, além de um livreto de contos, “Sobre o gostar”, de 2006; e outro de poemas “Espasmos”, de 2008. Os dois últimos lançados de modo independente. Apresentei diversas possibilidades a Avelino Ferreira que, felizmente, me ofertou um trabalho no Arquivo Público Municipal de Campos dos Goytacazes, atual Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho.  Portanto, minha história dentro da FCJOL, em momento algum, apresenta qualquer favorecimento político. Frisando o questionamento: leiam os dois últimos parágrafos do livro “Campos Capital? Os interesses econômicos e políticos distantes do povo”, lançado em maio de 2010 e disponível na Biblioteca Municipal Nilo Peçanha e no Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho, e observarão intensas contestações. Após mais de três anos desenvolvendo pesquisas e valorizando a lida dos poucos estagiários, lancei mais um livro em coautoria com o então estagiário José Victor Nogueira Barreto, e me transferiram, sem poder de escolha, ao Museu Histórico de Campos dos Goytacazes. Lá, juntamente com Carlos Freitas e Graziela Escocard, fundei o Museu. Em parceria com a, na época, estagiária Alba Vieira, criei o circuito expositivo “Campos dos Goytacazes através dos tempos” que norteia as visitas guiadas. No final de Junho de 2012, meu contrato com a empresa terceirizada foi interrompido e, por vontade própria, me transferi ao Reda, interrompido em agosto do mesmo ano pelo STJ. Na esperança de reversão, permaneci na instituição até novembro. Percebendo que não receberia os salários, simplesmente, me afastei do Museu. As conversas versavam na recontratação dos trabalhadores após o início do segundo mandato da atual prefeita. Não me convidaram. A explicação versou em torno de algum comentário “deselegante” que teci contra a presidente da FCJOL, Patricia Cordeiro. Não sei qual comentário. O que afirmo categoricamente, é que ocupava um espaço desejado por outros pesquisadores. Não falo do cargo no Museu; cito sobre minha atuação na historiografia campista.
Folha – Você escreveu que todo o discurso oficial em resposta às críticas à “debilidade das ações culturais de Campos” têm sido no sentido de se enaltecer um governo populista. Concorda então com o professor Arthur Soffiati, que citou o pensador francês Abraham Moles para considerar a política cultural goitacá “populista” e “autoritária”?
Cristiano - O populismo é alienante. O autoritarismo vem atrás, disfarçado de vítima.
Folha – Em relação a esse suposto autoritarismo, você afirmou que seu nome passou a ser “repudiado” na FCJOL, após sua saída, com antigos companheiros de trabalho chegando a se afastar pessoalmente, por receio de perseguição. É realmente sob esse clima que vive quem trabalha na cultura pública do município?
Cristiano - Não generalizo. A maioria dos trabalhadores do Museu Histórico de Campos dos Goytacazes me respeita em âmbito pessoal e profissional. Não digo o mesmo sobre o Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho. Em 2010, durante a 6ª Bienal do Livro de Campos dos Goytacazes, ouvi comentários que menosprezaram a grande vendagem do livro “Campos Capital? Os interesses econômicos e políticos distantes do povo”. Este ano, em a palestra “Os Campos dos Goytacazes na História do Brasil”, cujo público era formado por professores da rede pública municipal de Educação, percebi que cargos importantes evitavam conversar comigo. Sinceramente, achei e acho muito engraçado.
Folha – Você viveu a transição dos dois governos Rosinha. Quando, como e por que as coisas foram chegando ao nível de hoje na cultura?
Cristiano - Valorizo muito o período presidido por Avelino Ferreira. Creio que a sinceridade extremada seja a responsável por sua retirada do principal cargo da FCJOL. Mesmo repleto de contrariedades ideológicas, respeito Avelino por sua personalidade brutal. Após a chegada da atual presidente, notei uma supervalorização midiática e sem reflexo cultural à sociedade. Mantenho a ideia de que os shows de artistas sem arte servem aos vendedores de cervejas que evidenciam o alto índice da informalidade profissional ou, se preferires, o desemprego.
Folha – A última reforma administrativa da prefeita, que concentrou toda a administração cultural do município na FCJOL, foi questionada dura a abertamente, além de Soffiati, por Artur Gomes, Adriano Moura, Deneval de Azevedo Filho, Cristina Lima, José Sisneiro, Antonio Roberto Kapi, Ricardo André Vasconcelos e, mais recentemente, por Makhoul Moussallem. E você?
Cristiano - Na minha simplória opinião, a concentração de poder não é benéfica aos Campos dos Goytacazes. Todavia, seguindo o raciocínio, reflito sobre a atuação institucional anterior ao reformismo: a Fundação Zumbi dos Palmares, por exemplo, publicou, livros de “História” sem referências bibliográficas ou com míseras 5 bibliografias. Ou seja, a história campista é relatada sem critérios.
Folha – Ricardo André denunciou que a cultura no governo Rosinha prioriza os shows de nomes nacionais para levar gente às ruas e se criar na cidade um clima de comício eleitoral permanente, opinião endossada por Makhoul e, na Câmara, pelo vereador Rafael Diniz. Pelo que viu de dentro, o que pode dizer?
Cristiano - Costumeiramente, afirmo que o povo brasileiro é idiotizado pelos detentores do poder. Também digo que é uma grande mentira histórica a ideia de que o gaúcho é o povo mais politizado do Brasil. Contudo, não recordo de gastos públicos naquele estado com shows de custos irreais. Aqui é algo que erroneamente tornou-se comum.
Folha – Ricardo disse ser preciso “despatricizar” a questão cultural. Qual o limite entre a pessoa de Patricia e a política de Rosinha na cultura local?
Cristiano - Prefiro focar na atuação dos órgãos subordinados da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima. O Museu Histórico de Campos dos Goytacazes serve à realização de eventos espaçados e exposições políticas que inflam o ego da presidente. Muitos gritos, quando há contrariedade, ameaçam. Trabalhadores de uma empresa terceirizada lá estão e outros, antigos do Reda, foram inseridos no tal RPA. Existem, também, DAS. Outra instituição, o Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho não recebe investimentos; além da questão paternalista que lá reside. Importantíssima instituição está em estado vegetativo. O Museu Olavo Cardoso está fechado e a FCJOL fala em reforma. A Biblioteca Municipal Nilo Peçanha é entupida de ótimas ideias que não recebem investimentos. Para finalizar, o Centro de Eventos Osório Peixoto, Cepop, entregue a Feiras de automóveis, com carnaval feio, onde escolas de samba do Rio de Janeiro que cobram cachês ilógicos. No final do mês de agosto, o Cepop recebeu a II Semana do Folclore, durante 3 dias, na intenção de valorizar a cultura distante, e assim permaneceu, da população campista.
Folha – Em relação especificamente ao abandono do Arquivo Público, instalado no Solar dos Jesuítas, leu a matéria da Folha do último dia 10, noticiando o depósito de garrafas pet, material altamente inflamável?
Cristiano - A matéria mencionada expõe mais um problema da instituição. A falta de mão de obra é clara. Porém, o mais grave é o paternalismo engessado que privilegia currículos em detrimento das ações culturais benéficas à sociedade.
Folha – Como um professor de história e escritor gaúcho enxerga com os olhos de fora a cultura deste “viridente plaino goitacá”, após tê-la vislumbrado de dentro? Como essa visão está expressa nos seus livros sobre a história do município, “Campos Capital? Os interesses econômicos e políticos distantes do povo”, de 2010, e “O preconceito estampado”, de 2011, escrito em parceria com José Victor Nogueira Barreto?
Cristiano - Nunca trabalhei na área cultural com investimento significativo. Independente, busco alternativas. Exemplo é o livro “Campos Capital? Os interesses econômicos e políticos distantes do povo”. Não havia verba para publicação. Assim, minha esposa, Goreti Maia Pluhar, criou a capa, diagramou e imprimi em uma impressora “caseira”, dobrei as páginas e grampeei. Quase 500 exemplares foram vendidos pela Associação Cultural do Arquivo. Já o livro “O preconceito estampado”, lançado em 2011, novamente minha esposa criou a capa e, surpreendentemente, contrataram uma gráfica que produziu uma tiragem de 200 exemplares. Ambas obras foram motivadas pelo desconhecimento social do fato histórico. O primeiro livro, após vasta pesquisa nos principais jornais campistas a partir da segunda metade do século XIX (1855, perdurando até o final do século XX), revelou as tentativas da Cidade dos Campos dos Goytacazes em se tornar Capital da Província do Rio de Janeiro e, posteriormente, sede administrativa de um novo Estado: o Estado de Paraíba do Sul. Já “O preconceito estampado” traz notícias dos principais jornais campistas, no período entre 1930 e 1954, tempos de Getúlio Vargas, com exceção do Governo Dutra, de 1946 a 1951, que evidenciam o repúdio de uma sociedade conservadora com as práticas religiosas de origem africana. O interesse pela questão surgiu logo após minha chegada aos Campos dos Goytacazes. Pessoas com relativa intelectualidade, afirmavam que a Cidade não se desenvolvia, ou não se desenvolve, por conta das maldições deixadas pelos escravos africanos. Sem pretensão, creio que meus livros tratam a História campista de forma entendível ao cidadão campista. Além disso, fontes pouco valorizadas pelos memorialistas e até mesmo historiadores, buscam a dificílima verdade histórica. Outro objetivo foi e é o choque rude com o moralismo elitista ou religioso hipócrita.
Folha – Pergunta do Soffiati agregada (aqui) à pauta geral: se você fosse convidado a organizar o setor cultural de Campos, quais seriam as suas ações?
Cristiano - Não tenho competência intelectual para ofertar propostas nas diversas áreas culturais. Todavia, no que confere ao meu trabalho de historiador, idealizo a criação de um Centro de História Oral que fortalecerá a identidade local e reconhecerá o campista como importante agente histórico. A lida, inicialmente, versará em torno da História dos distritos e bairros dos Campos dos Goytacazes. Outra possibilidade que observo, é a abertura real para pesquisa de documentos abrigados no Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho, além da digitalização do acervo. Uma questão que necessita urgente reflexão versa sobre a valorização educacional da História dos Campos dos Goytacazes.

Da edição impressa de hoje da Folha da Manhã (Folha 2, capa e página 2) e Blog Opiniões (aqui)

domingo, 6 de janeiro de 2013

A HISTÓRIA DEMOLIDA NA CALADA DA NOITE

06/01/2013 - 19H25 - RAV

                                                                                                                              06/01/2013 - 19H25 - RAV


Mais um golpe no cenário urbano de Campos. O casarão da família Pinto na esquina da Saldanha Marinho com Treze de Maio foi posto abaixo na calada da noite durante o final de semana, conforme flagrante denunciado por Luciana Portinho do Blog de Luciano Portinho, da Folha da Manhã (aqui).
No último dia primeiro, o Blog mostrou aqui outras casas demolidas, na região da Pelinca, para dar lugar, certamente, a novos arranha-céus.
Enquanto os órgãos municipais que existem (?) para defender o patrimônio histórico do município, continuam em criminoso silêncio.
Abaixo a denúncia de Luciana:

E na calada da noite



Ontem por volta das 22.40 h, recebemos a denuncia da demolição daquela casa linda na esquina da Saldanha Marinho com Treze de Maio, de frente ao Vips Center e ao Posto São José.
Mais um crime ao nosso patrimônio público. O mandante do desmonte sabia da gravidade da ação, tanto que agiu em uma noite de sábado, em janeiro (quando a população da cidade está fora de Campos) e o fez entre 20.30 h e 21.40 h. Na calada da noite, veio tudo abaixo.
Lá foram vistos e fotografados três caminhões caçamba que recolheram a maior parte dos destroços do casarão, uma retro escavadeira hidráulica de esteira, uma carreta prancha que trouxe a retro para a operação e um automóvel Audi preto fazendo a  retaguarda.
Foram flagrados, fotografados. Pararam de retirar os escombros. Fecharam o portão e lá dentro ficaram a retro, a carreta prancha que levará a retro embora e ainda um monte de entulho. Tudo foi fotografado por populares que disponibilizaram ao blog e ao Ministério Público, por conseguinte.
Um escândalo.
Fotos abaixo, movimentação do abate do casarão, enviadas por leitor.
Christiano Abreu Barbosa (aqui), também repercutiu o assunto:



Cidade sem memória




Quem voltou hoje do final de semana nas praias da região se deparou com uma triste cena para a memória da cidade. Foi ao chão, demolido, o belo casarão da família Pinto, que há mais de 100 anos iluminava a esquina das ruas 13 de Maio e Saldanha Marinho.
A demolição, coincidência ou não, ocorreu em um final de semana de verão, quando a cidade está mais vazia. Nada contra os proprietários do imóvel quererem rentabilizar o seu bem, apesar da perda de parte de sua história familiar, mas falta mobilização do poder público (o Coppam existe?) e da própria sociedade em prol da preservação da memória de Campos.
Um ótimo exemplo foi dado em um outro casarão da familia Pinto, localizado na mesma Rua Saldanha Marinho. Ele foi vendido, mas preservado, ocupando hoje as instalações da Unidade 2 do Hospital Dr. Beda, em local onde funcionou o Pró-Clinicas. O casarão derrubado hoje data do século 19.

Relexões, de Giana Barcelos (aqui):

 




A Chácara da Rua Treze de Maio foi demolida na manhã deste domingo. (06/01/2013). Mais uma memória da cidade se apaga.

O referido imóvel era tombado pelo Patrimônio Histórico.

Obviamente não havia licença para a demolição tendo em vista que o referido imóvel além de ser tombado pelo Patrimônio Histórico, não estava desabando e nem colocando em risco a população.

Indubitavelmente é hora de acertar contas com a Lei quem foi o (ir)responsável que tomou esta atitude.

MP de plantão? Governo Municipal? Secretaria responsável? Multa pesada e reconstrução para reparar o dano.

Lei foi feita para ser cumprida.


E mais:

Blog do Ralh Braz (aqui)

Do Jornal Terceira Via (aqui)


Data: 06/01/2013 - 16:54:25

Casarão antigo demolido sem autorização neste domingo em Campos

Denúncia foi enviada por um leitor do Terceira Via. Outras pessoas fotografaram a demolição e vão enviar o material para o MP

Sem a presença de autoridades competentes, um prédio antigo de Campos foi demolido na madrugada deste domingo (06/01). A denúncia do crime ao patrimônio público foi enviada por um leitor do Terceira Via, que indignado com o fato e com o descaso do proprietário do imóvel fotografou toda a ação do desmonte.

Segundo informações, o prédio, situado na esquina da Saldanha Marinho com rua Treze de Maio, próximo ao Vips Center, no Centro de Campos, começou a ser demolido por volta das 23h. A ação e a retirada dos entulhos aconteceu até o início da tarde deste domingo, sem a presença de nenhuma autoridade.

Por lá foram vistos caminhões caçamba que recolheram a maior parte dos destroços do casarão, retro escavadeiras e carretas. Tudo feito sob os olhares dos proprietários, que não quiseram se identificar nem se pronunciar. 

Segundo o leitor, outras pessoas fotografaram a demolição e vão enviar o material para o Ministério Público.

Atualização em 07/01/2013 - 23h26:

Folha on line (aqui):


Cultura e Lazer

Demolição: um crime contra história

Na noite do último sábado, com a cidade esvaziada de sua população — que veraneia nas praias —, com o auxílio de uma retro escavadeira hidráulica de esteira, de alguns caminhões baú e de veículos que supervisionavam a ação noturna, foi iniciada a derrubada de um exemplar arquitetônico remanescente da aristocracia do século XIX, situado na esquina da rua Saldanha Marinho com a Treze de Maio, em pleno centro da cidade de Campos. Como secretário de Cultura e presidente do Conselho de Preservação do Patrimônio Arquitetônico Municipal (Coppam), Orávio de Campos promete acionar o Ministério Público Estadual (MPE) ainda na manhã de hoje.

Em 12 de julho do ano passado, a Folha da Manhã abriu a matéria intitulada “Guarde o sorriso para o ano que vem” na capa da Folha Dois. A reportagem chamava a atenção para o estado de abandono do histórico casarão. O ano de 2013 não chegou com um sorriso, mas com o prédio transformado em escombros. Naquela ocasião, o professor e acadêmico Aristides Soffiati enquadrara a construção como uma possível última representante do tipo de construção narrada no livro do campista José Cândido de Carvalho “O coronel e o Lobisomem”.

Também na mesma oportunidade Orávio de Campos afirmara que prédio estava protegido.

— A chácara está protegida pela Lei 7972, de 31 de março de 2008, como um importante símbolo da chamada aristocracia urbana. É importante para a historicidade, pelo ponto de vista da cultura e do patrimônio arquitetônico — disse.

Para o professor e pesquisador representante da sociedade civil no Coppam, Leonardo Vasconcelos, a chácara, construída em 1870, era um bem arquitetônico que já não existe no município; uma construção colonial de alto padrão. Era também um bem histórico, foi residência de uma pessoa destacada; o comerciante português Matias José de Freitas Aranthes, um influente negociador de açúcar. “O pedido de demolição chegou há cerca de seis meses no Coppam e foi recusado. Propus então no Conselho que a prefeitura desapropriasse o imóvel e lá instalasse o Museu Temático do Comércio, não foi aceito pelo presidente Orávio de Campos.
O fato é que o Coppam não tem “poder de polícia” e sendo assim não é respeitado por não poder impedir ações de derrubada no nascedouro”, fala o pesquisador. Ele revela ter, por vezes, ímpetos de se desligar do Coppam, “Fico com a sensação de servir para referendar atitudes de desobediência civil, de tirar minhoca do asfalto; está tudo errado no Coppam, nem um calendário de reuniões regulares temos mais. Nada mais me causa espanto e pelo jeito vai continuar”, desabafou Leonardo.

Violências à preservação do patrimônio público como esse último, ano a ano se repetem em Campos. Chocam os formadores de opinião, indignam a ainda frágil cidadania, fortalecem a amnésia histórica da população local.

Logo pela manhã de hoje, o MPE será oficialmente notificado da derrubada do histórico imóvel, é o que promete fazer Orávio de Campos. “Já pedi ao fotógrafo Wellington Cordeiro o registro de imagens. Afinal o Coppam é de preservação, não de demolição. Já havia uma informação à família do ex-prefeito Carlos Alberto Campista [proprietária do imóvel] de que se tratava de um prédio tombado, apesar dele pessoalmente ter entrado com uma liminar, também na Justiça Comum, arguindo o direito de propriedade para demolir o prédio. Vamos nos dirigir ao Dr. Marcelo Lessa. Como presidente do Coppam não fui notificado do ato, não tivemos conhecimento prévio. Em um sábado, pela noite, me parece que a ‘coisa’ contém algum dolo”, lamentou Orávio.
Luciana Portinho

Atualização 07/01/2013 23h27:

Ururau (aqui):

IDADES E REGIÃO - DEMOLIÇÃO DE PATRIMÔNIO

Prédio demolido deixa populares e autoridades públicas indignados

Órgãos responsáveis afirmam que intervenção foi arbitrária
 Mauro de Souza/Carlos Grevi

Órgãos responsáveis afirmam que intervenção foi arbitrária

A demolição de um prédio histórico localizado bem no Centro da cidade revoltou a todos. A intervenção ocorreu na noite do último sábado (05/01), em meio ao deserto em que se encontrava a cidade de Campos, visto que, a maioria da população se encontra passando férias em outros pontos da região. De acordo com o secretário de Cultura e presidente do Conselho de Preservação do Patrimônio Arquitetônico Municipal (Coppam), Orávio de Campos Soares, a demolição foi arbitrária, sem parecer técnico do órgão responsável e sem autorização da Secretaria Municipal de Obras e Urbanismo.

Ainda segundo Orávio, não existe sentença prolatada e o assunto está sendo debatido na 4ª Vara Civil, com respaldo no Ministério Público do Estado do Rio (MPE), pois trata-se de um crime praticado contra a história da cidade.

“O prédio, pela sua importância, estava protegida pela Lei 7972, de 31 de Março de 2008 (Plano Diretor). No momento estava sendo feito o expediente regimental para ser tombado pelo patrimônio histórico municipal. Portanto, não poderia ser demolido”, afirmou o secretário.

O exemplar arquitetônico remanescente da aristocracia do século XIX, situado na esquina da Rua Saldanha Marinho com a Treze de Maio, é de 1870. Segundo Orávio, o comerciante Matias José de Freitas Arantes o construiu para residência e era o último espécime remanescente da aristocracia urbana campista. “O próximo passo a ser feito é denunciar e esperar que o Ministério Público tome as providências”, contou o presidente do Conselho acrescentando que no municio de Campos, existem vários prédios protegidos igualmente pelo Plano Diretor.

SECRETARIA DE OBRAS E URBANISMO EMBARGA INTERVENÇÃO
Nesta segunda-feira (07/01) a equipe do Site Ururauentrou em contato com o secretário de Obras e Urbanismo, Edilson Peixoto, que informou que a obra da demolição foi embargada pelo órgão.

Segundo o secretário, a intervenção ocorreu a revelia e não houve nenhuma autorização da prefeitura para tal procedimento.

“Existe um processo deferido pela prefeitura que está tramitando na justiça, pois assim que soube da situação, a Coppam entrou com medidas para embargar a obra. A demolição aconteceu na calada da noite e ninguém viu. Diante disso, estamos tomando as providências cabíveis para tal fato”, revelou Edilson.
07/01/2013 08:40


domingo, 28 de fevereiro de 2016

OPORTUNIDADE DESPERDIÇADA. O FIM DA FARRA DOS ROYALTIES


De O Globo deste domingo (aqui):



POR BRUNO ROSA
28/02/2016 6:00 / atualizado 28/02/2016 8:33


CAMPOS DOS GOYTACAZES, MACAÉ, QUISSAMÃ e RIO DAS OSTRAS - A exemplo do Estado do Rio de Janeiro — que não soube aproveitar a herança gerada pelos recursos oriundos do petróleo —, as cidades do Norte Fluminense vêm sofrendo com a pouca diversificação de suas economias e, hoje, têm de lidar com pesados cortes no orçamento. Dilemas realçados pelo legado de maus investimentos feitos nos últimos quinze anos, definidos por um prefeito da região como “ufanistas”. Em 1999, logo após a abertura do setor de petróleo, os municípios do Estado do Rio receberam R$ 222,7 milhões em royalties e participações especiais. O número saltou quase 2.000% e, em 2014, chegou a R$ 4,654 bilhões, em valores correntes. Com a queda do preço do petróleo no mercado internacional e a crise da Petrobras, a farra dos royalties perde fôlego. No ano passado, a arrecadação caiu 35% para R$ 3,022 bilhões, segundo dados da InfoRoayalties, com base na Agência Nacional do Petróleo (ANP).




Campos. Estátua de elefante da Cidade da Criança: obra que consumiu R$ 17 milhões divide moradores. Para presidente da Companhia de Desenvolvimento de Campos (Codemca), Wainer Teixeira de Castro, parque tem “caráter pedagógico” - Antonio Scorza / Agência O Globo




Com menos recursos em caixa, ainda prevalecem sinais dos tempos de gastança, como a recém-inaugurada Cidade da Criança em Campos dos Goytacazes, chamada na região de “a Disney de Campos”. O empreendimento poderá um dia se juntar à famosa e polêmica calçada de porcelanato em Rio das Ostras e ao parque recreativo de Macaé. Hoje, o retrato da crise se faz presente nos dois projetos, inaugurados há mais de dez anos: o abandono.

Só quem chega na Praça Alzira Vargas, no centro de Campos, entende a dimensão do novo parque, que consumiu investimentos de cerca de R$ 17 milhões da prefeitura e começou a ser desenvolvido há cinco anos. O parque ocupa um quarteirão inteiro. São prédios coloridos, com muitos animais na decoração — como estátuas de elefante e urso panda —, assentos no formato de cachorro-quente e maçã, cascata de água e piso que absorve o impacto para as crianças não se machucarem. Desde que foi inaugurado, o horário de funcionamento está em ritmo de soft opening: das 18h às 22h. Em operação desde dezembro, o empreendimento divide a opinião de moradores.

— Dá uma dinâmica para a região — afirma a estudante Thais Ferreira, de 26 anos. — Mas a educação básica aqui é precária. O transporte também é ruim para as áreas mais afastadas — pondera.

José Novaes Alvez, de 72 anos, mora próximo do parque e diz não entender o projeto:

— O dinheiro dos royalties não está sendo bem aplicado. O Sambódromo é outro exemplo. A gente nem carnaval tem mais. O saneamento básico, por exemplo, é nota zero.

Com 76 funcionários, o parque não é gratuito para maiores de 13 anos. O preço do bilhete vai de R$ 2,50 a R$ 5. A “taxa simbólica”, segundo Wainer Teixeira de Castro, presidente da Companhia de Desenvolvimento de Campos(Codemca), tem o objetivo de tornar o parque um empreendimento sustentável financeiramente até o fim do ano. Castro afirma que reage às críticas com naturalidade. Segundo ele, o parque tem “missão pedagógica", pois terá dois salões que serão usados por alunos da rede pública.

— Isso vai trazer um enriquecimento curricular. Mas as críticas fazem parte da cidadania. O projeto nasceu em 2011, quando não tinha crise de royalties. Talvez, se fosse hoje, a decisão seria outra. Quem vem aqui fica apaixonado — diz ele, lembrando que em média o parque recebe mil pessoas por dia, sendo que a capacidade do empreendimento é para dois mil visitantes.

Para especialistas, a cidade poderia ter destinado os R$ 17 milhões a investimentos em setores prioritários, como saúde e saneamento. Para Renato Cesar Siqueira, da ONG Observatório de Controle do Setor Público, o espaço é um mau exemplo de uso do dinheiro público. Ele cita outros empreendimentos, como o Sambódromo e o Palácio da Cultura, em reforma há anos:

— Foi um gasto desnecessário. A cidade tem necessidades fundamentais, como melhorar a infraestrutura, o transporte público. Os municípios foram irresponsáveis com o uso dos recursos. Ficaram escravizadas pelos royalties.


PORCELANATO COM EQUIPAMENTOS ENFERRUJADOS
Rio das Ostras. A calçada de porcelanato na Costa Azul sofre com falta de manutenção e equipamentos enferrujados - Antonio Scroza / Agência O Globo

Outros projetos grandiosos sofrem com a carência de recursos e dão sinais de deterioração. Em Rio das Ostras, o famoso calçadão de porcelanato na orla das praias da Costa Azul volta a chamar a atenção dos turistas. Não pela beleza, mas pela falta de manutenção, com rachaduras e equipamentos enferrujados. A reforma, feita há mais de doze anos e alvo de polêmica entre especialistas e moradores, é, hoje, sinônimo dos tempos de crise. O prefeito Alcebíades Sabino (PSC), que também estava no cargo quando a obra foi feita, admite que os contratos de manutenção foram reduzidos.

— A orla está abandonada. É um perigo para as crianças. Os brinquedos estão cheios de ferrugem. As raízes das árvores estão quebrando o porcelanato. O material é bonito, mas poderia ter sido usado um mais em conta — diz um dos comerciantes do local, que pediu para não ser identificado.

Não muito longe dali, quem ostenta a decadência de projetos faraônicos é Macaé. O Parque da Cidade, no bairro Praia Campista, de 75 mil metros quadrados, inaugurado em 2004, está abandonado. Os rios artificiais estão secos, as rachaduras estão por toda a parte, e a vegetação cresceu de forma desordenada. Até o piso especial, que lembra o porcelanato de Rio das Ostras, passa despercebido. O prefeito da cidade Aluízio Santos (PMDB) diz que o projeto foi um erro:

— São projetos ufanistas. A cidade não tem a cultura de parque. Oferecemos essa área para a Petrobras no ano passado para eles fazerem uma retroárea para seu porto, mas não quiseram.
Macaé. Ginásio Poliesportivo já foi interditado pela Defesa Civil: piso de madeira afundado e fiação no subsolo - Antonio Scorza / Agência O Globo

Outro exemplo é o Ginásio Poliesportivo na Riviera Fluminense, que foi interditado pela Defesa Civil e é alvo de crítica de moradores e especialistas. Com o chão de madeira afundado, grades enferrujadas e soltas, o espaço está abandonado. O prefeito de Macaé afirma que pretende iniciar reformas em breve. Santos destacou que o bairro sofre com alagamentos, e, para piorar, a fiação elétrica do empreendimento está no subsolo.

— Foi um investimento equivocado. É um dos símbolos do desperdício. Vemos hospitais sem materiais básicos, a farmácia popular em condições ruins de atendimento — lembrou o vereador Igor Sardinha (PRB), citando a compra de dois vagões para o sistema de VLT que nunca saiu do papel.

corte de contratos e devolução de prédios
Corte de custos. Em Campos, que vem sofrendo com o aumento da favelização, prefeitura cortou três mil terceirizados e devolveu prédios alugados - Antonio Scorza / Agência O Globo

Enquanto o setor de petróleo e gás passa por momento nebuloso, os municípios que dependem da atividade começaram o ano apertando ainda mais os cintos: do cafezinho do prefeito aos milhares de funcionários terceirizados das prefeituras, que são grandes empregadoras das cidades. Até prédios alugados pela gestão pública estão sendo devolvidos paulatinamente aos antigos donos. Esse movimento é acompanhado do aumento da favelização.

Em Macaé, somente entre os funcionários terceirizados da prefeitura, o corte no início de ano chegou a 300 pessoas. Além disso, a prefeitura está reduzindo em 20% todos os contratos. Tudo reflexo de uma queda de 30% de arrecadação dos recursos do petróleo no ano passado.

DEMISSÃO ATÉ DE CONCURSADOS

Para o prefeito de Macaé, Aluizio Santos (PMDB), a redução do preço do barril de petróleo e das atividades da Petrobras foi “uma equação explosiva”.

— Afinal, 23% da arrecadação vêm do petróleo e têm impacto na geração de receita própria, como ISS, IPTU etc. — diz o prefeito, que ao longo de 2015 cortou salários dos funcionários públicos comissionados, reduziu o número de secretarias de 62 para 25 e abriu mão de seu salário, de cerca de R$ 12 mil.

O vereador Igor Sardinha (PRB) diz que a situação é reflexo dos maus gastos.

— É preciso um redirecionamento dos gastos. Não há por que falar em crise. Macaé é uma das cidades do Brasil que mais recebem recursos de royalties. Como não tem dinheiro? Não há política pública para melhorar a qualidade de vida e com isso toda a cidade sente — diz Sardinha, destacando gastos como as festas de fim de ano para a cidade.

Já Campos dos Goytacazes se prepara para a segunda rodada de ajustes após os cortes do ano passado, quando houve redução de 10% dos salários de profissionais comissionados, a diminuição de 39 para 13 secretarias, o corte de três mil funcionários terceirizados e a diminuição de até 30% dos contratos como limpeza, merenda, saúde e informática. Até os funcionários concursados podem perder o emprego, por um projeto de lei em tramitação na Câmara, segundo vereadores da oposição, que são contrários a proposta.

Fabio Ribeiro, secretário de Gestão de Pessoas e Contratos de Campos, diz que pretende cortar mais mil terceirizados.

Para superar a crise, Campos, que tem 53% de suas receitas oriundas do petróleo, congelou em 30% o orçamento de 2016, previsto até agora em R$ 1,7 bilhão. Já está devolvendo prédios alugados e reacomodando os funcionários públicos. Para ajudar a fechar as contas, a cidade vai rever os alvarás como forma de aumentar a arrecadação.

— As medidas contra a crise começaram em 2014. Ninguém esperava que o preço do barril de petróleo chegasse a menos de US$ 30 — diz Ribeiro.

Em Rio das Ostras, foram exonerados cem cargos comissionados na prefeitura este ano, totalizando, assim, desde 2015, 400 vagas a menos. O prefeito Alcebíades Sabino (PSC) lembra ainda que, assim como faz Macaé, está devolvendo dez prédios alugados que eram usados pela prefeitura, como a secretaria de Saúde e o prédio da Procuradoria.

— Os funcionários públicos foram proibidos de fazer hora extra e não demos aumento aos servidores. Não há outra solução a não ser cortar os gastos — disse o prefeito de Rio das Ostras, Alcebíades Sabino (PSC).

A empresária Vanessa Moraes Mouro da Silva é dona de um quiosque na praia da Costa Azul de Rio das Ostras e se queixa dos cortes de empregos e dos benefícios como o vale-alimentação. Ela teve de demitir dois dos quatro funcionários após registrar queda de até 40% nas vendas.

— Sem o vale, ninguém come na rua. A crise do petróleo atingiu muito a região e muitos profissionais estão indo embora. Quando falam que a Petrobras vai desativar uma plataforma, pronto, você vê muitos amigos perdendo emprego. E vários amigos já me pediram emprego — contou.

SECRETÁRIO ACUMULA CARGOS

Há duas semanas, Quissamã também cortou o serviço de horas extras dos funcionários públicos e o vale-alimentação de parte dos comissionados. Na sexta-feira, o expediente acaba meio-dia. Isso ocorre após os ajustes feitos em 2015, com a redução de 20% no valor de todos os contratos.

— Por mais que as ações gerem descontentamento, elas se fazem necessárias — disse o prefeito Nilton Pinto (PR), que destaca a queda de 12% de ICMS e de 40% nos royalties em 2015.

Para se ter uma ideia da crise, os secretários também estão virando uma espécie de faz-tudo. É o caso de Fabiano Barreto Gomes, que passou a a acumular as pastas de Desenvolvimento Econômico, Urbanismo, Trabalho e Renda de Quissamã. Segundo ele, 95% do orçamento da cidade vêm dos royalties do petróleo:

— Diversificar a economia é difícil. Montamos um galpão de confecção para estimular a produção de peças íntimas. Mas as empresas migraram para macacões de petróleo.

Em uma moeda, paralelo com a crise de 1930
Além do Réis. Helianna Barcellos mostra 'O Operário': 'A moeda não valia nada' - Antonio Scorza / Agência O Globo

Na última quarta-feira, Helianna Barcellos terminou o dia com uma história na cabeça. Foi só ver as notícias de que a agência Moody’s rebaixou o Brasil para Dona Leninha se lembrar de “O Operário”, moeda que circulou em Quissamã, de 1933 até o fim da década de 1940, quando a cidade ainda era o quarto distrito de Macaé. Na época, a moeda oficial do país era o Réis.

Ela correu para o Facebook e lembrou em sua página, chamada de “Quissamã Memória Viva”, do Armazém Ribeiro & Filho, local que, além de comprar e vender sedas e perfumes, funcionava como uma casa bancária, único estabelecimento que fazia o câmbio da moeda exclusiva de Quissamã pelo Réis.

— A moeda só circulava aqui. Uma casa em Macaé também a aceitava. Feita de alumínio, O Operário, moeda local, era conhecida como “A Ficha”. Havia muita insatisfação na época porque o dinheiro não valia nada. Nessa época tivemos a recessão iniciada com a crise de 1929 nos Estados Unidos — contou.

Segundo ela, que mora no Centro de Quissamã e não gosta de falar de assuntos relacionados à política, a situação atual lembra, e muito, a daquela época:

— Quando vi essa agência (a Moody’s) cortando a nota do Brasil, lembrei de toda essa insatisfação que estamos vivendo. Hoje o que se vê é assistencialismo e dependência. Tem que apresentar soluções.

Para manter viva essas história, Dona Leninha decidiu criar em sua própria casa uma espécie de museu, chamado de Espaço Cultural José Carlos de Barcelos.

— Aqui recebo estudantes e pesquisadores — contou ela, que guarda cópias do Títulos Nobiliárquicos doados por Dom Pedro II, que esteve em Quissamã em 1847.— Gosto muito de arte também, por isso pinto a história de Quissamã em pratos e azulejos.

Ela também aponta buracos na rua no Centro da cidade.

— Nesse trecho, aqui, por exemplo, não tem acostamento — queixa-se Dona Leninha, há duas décadas na cidade.

O operário Paulo Rodrigues, que chegou a trabalhar por três anos em um dos principais projetos em curso na região, o Complexo Logístico Farol/Barra do Furado, compartilha da mesma insatisfação.

— Trabalhei três anos nas obras de Barra do Furado. Quando o serviço parou, fui para o Açu. É muito ruim essa crise porque não tem emprego para todos — lamentou.

Gastos sociais são o maior alvo dos cortes
Em Campos. No bairro de Nova Brasília, moradores reclamam do buraco aberto há um ano e meio que expõe população ao esgoto. Prefeitura está empenhada em cortar gastos - Antonio Scorza / Agência O Globo

Construção de creches suspensas, novos hospitais fechados e obras de saneamento e água encanada em ritmo ainda mais lento por causa da queda dos royalties. Este é o retrato da crise social nos principais municípios dependentes dos recursos do petróleo no Rio, que pouco conseguiram diversificar suas economias como forma de elevar a arrecadação. De Rio das Ostras a Campos, os problemas vêm causando preocupação entre os moradores.

Maior cidade da região, Campos, com mais de 483 mil habitantes, decretou a chamada “situação de emergência econômica”. Resultado: foi montado um gabinete de crise para cortar. Na primeira etapa, serão cancelados os contratos com empresas responsáveis por fornecer merendas escolares e alimentação de hospitais. Além disso, serão reduzidos serviços como os de limpeza urbana, lista o secretário de Controle Orçamentário e Auditoria da cidade, Suledil Bernardino. Além disso, as 164 obras do município tiveram seu ritmo reduzido.

— Toda a alimentação de escolas e hospitais será feita pela própria prefeitura. Cortamos ainda a contratação de médicos substitutos, caso haja dois médicos no plantão. O objetivo é cortar mais ainda os gastos — adianta Bernardino.

FALTAM POLÍTICAS CONJUNTAS, DIZ PESQUISADOR

Enquanto isso, a população começa a perder a esperança. Mariluci Terra, que trabalha entregando quentinhas, mora no bairro Nova Brasília, um dos mais populares de Campos. Na esquina de sua casa, sem pavimentação, ela sofre há um ano e meio com um enorme buraco com esgoto a céu aberto. A poucos metros de distância, a construção de uma creche está parada há mais de um ano.

— Entra rato na nossa casa. A prefeitura me disse que não tinha dinheiro para fazer obra.

Entre os especialistas, muitas críticas. Roberto Moraes, pesquisador do Núcleo de Estratégia e Desenvolvimento do Instituto Federal Fluminense (IFF) e da Uerj, destaca que os reflexos da falta de diversificação das economias para além do petróleo são agravados pelo fato de as cidades trabalharem de forma isolada.

— O que se fez de diversificação é pequeno frente aos investimentos do petróleo. Não há uma busca por soluções conjuntas. Além disso, em muitos casos, os gastos com infraestrutura e educação têm valores acima da média nacional. Macaé, por exemplo, está se esvaziando desde a descoberta do pré-sal, na Bacia de Santos, já que as bases de apoio da Petrobras estão indo para o Rio e Niterói. Isso afeta todo o entorno do Norte Fluminense. Assim, as cidades saíram dos tempos de fartura para a “faltura”. Ninguém se preparou para esse momento. Por isso, tantos cortes — destacou Moraes.

Em Macaé, com 206 mil habitantes, o corte dos royalties postergou muitos sonhos: as obras de saneamento básico foram reduzidas, adiando assim a meta de levar o tratamento de esgoto para 60% da população, antes prevista para 2015, para meados deste ano. A água encanada ainda não é realidade para cerca de 40 mil moradores.

Na cidade, a estratégia também é reduzir o ritmo das obras para gastar menos. Nos planos do prefeito estão a redução das obras de pavimentação e urbanização, assim como da construção de calçadas e rede pluvial. A mesma lógica se aplica aos hospitais, que terão uma central única de compras.

— O que segurou 2015 foi o aumento dos recursos próprios, já que até para desmobilizar uma plataforma há incidência de ISS (Imposto sobre Serviços). É difícil falar em diversificação. A cadeia de petróleo remunera bem. E como você vai fomentar outra atividade, como a pesca, se até esses barcos estão sendo usados como embarcações de apoio e se os filhos dos pescadores preferem trabalhar no petróleo? As reclamações da população são corretas. O dinheiro nos últimos anos foi usado de forma equivocada — disse Aluízio Santos (PMDB), prefeito de Macaé.

Renato Cesar Siqueira, da ONG Observatório de Controle do Setor Público, afirma que nenhum dos municípios soube aproveitar as benesses dos royalties. Não investiram em projetos de mobilidade urbana e não conseguiram desenvolver outras atividades industriais além do petróleo:

— É uma questão de gestão. Agora, tem que se virar e lidar com uma condição limitadora. A cidade de Campos tem uma série de possibilidades, como a cerâmica, a indústria, a agricultura e o turismo. Mas o governo não diversifica, pois prefere ações populistas e deixar todos dependentes.

Sem escolas novas e com unidade de saúde fechada
EC-Rio das Ostras, 22/02/2016- Declinio nos royalties do petroleo. Predio da UPA sem uso por falta de medicos e equipamentos. Foto: Antonio Scorza/ Agencia O Globo - ANTONIO SCORZA / Agência O Globo

A educação e a saúde também preocupam. Em 2016, foram registrados 8.893 novas matrículas escolares em Macaé, procura 200% maior que a do ano anterior, quando ficou em cerca de três mil. O aumento da demanda por educação também está no radar de Quissamã, que acabou com o horário integral do ensino básico em três escolas da cidade. Em Rio das Ostras, com 130 mil habitantes, a expectativa é que o número de matrículas ultrapasse as cinco mil do ano passado, ao mesmo tempo em que a saúde sofre com a unidade de atendimento que foi construída, mas não começou a funcionar.

As estudantes Bianca Costa e Jennyfer Kelly, de 16 anos, que moram em Rio das Ostras, lembram que este ano letivo já começou com falta de professores. A palavraroyalties já faz parte do vocabulário juvenil.

— Já ouvimos falar sim sobre a crise dos royalties. A gente começou a ter aulas, no dia 15 deste mês, mas ainda faltam professores. Por isso, acabamos sendo liberadas antes do horário. Agora, estão falando que os professores vão entrar em greve — diz Jennyfer, que é aluna do segundo ano do ensino médio.

SEM BOLSA DE ESTUDOS

O prefeito de Rio das Ostras, Alcebíades Sabino (PSC), diz que os professores têm contratos de um ano que, neste momento, estão sendo renovados. Mas não esconde que a fase é difícil: foram adiadas a construção de duas novas creches. E o projeto de três novas escolas não está mais nos planos da prefeitura. Dos universitários, foi cortado o transporte que levava 900 estudantes que cursam faculdade em outros municípios, como Macaé e Niterói. Mesmo problema ocorre em Quissamã, onde a concessão de novas bolsas de estudo para universitários foi cancelada. Só estão em vigor as 279 bolsas iniciadas até 2015.

— Todas as áreas tiveram cortes. Fomos obrigados a cancelar o horário integral para parte do ensino em três escolas da cidade. Estamos buscando parcerias para fazer as manutenções nas vias. Não tem dinheiro. Novos investimentos estão parados — disse Fabiano Barreto Gomes, secretário de Desenvolvimento Econômico, Urbanismo, Trabalho e Renda de Quissamã.

Segundo o prefeito de Rio das Ostras, não há dinheiro para continuar os investimentos. Ele cita o caso de uma UPA, pronta desde novembro do ano passado, que não pode ser inaugurada. Pelas contas da prefeitura, seriam necessários 800 funcionários para que a unidade de atendimento médico, localizada no bairro popular de Âncora, com 13 mil moradores, funcionasse 24 horas.

REDE DE ESGOTO É DESAFIO

Na saúde, outros planos também estão só no papel: o hospital da cidade, que conta com 60 leitos, precisava ser ampliado para 150, o que não será mais feito. A cidade também não consegue estender a rede de esgoto, que atende apenas 20% da população.

— Rio das Ostras tem alta dependência dos royalties, de cerca de 48%. Mesmo tendo aumentado 8% a receita própria, com a nota fiscal eletrônica e a renegociação de contratos, a perda com o petróleo chega a 50%. Por mais cortes que a gente tente fazer, não chegamos nem perto. Estamos tentando diversificar a economia, investindo no turismo para aumentar a fonte de recursos. Se nós não tivéssemos feito esse investimento em turismo, hoje não estaríamos sobrevivendo — disse Sabino

Sem empregos, rotina em busca de vagas
Em busca de vagas. Desempregados começam a formar fila no Banco de Emprego de Rio das Ostras às 6h. Até o meio-dia, mais de 200 pessoas já haviam sido atendidas: procura de moradores de outras cidades e até de haitianos por trabalho - Antonio Scorza / Agência O Globo

Em Rio das Ostras, a fila começa às 6h. O sol mal nasceu e centenas de pessoas disputam uma senha para, quem sabe, voltar ao mercado de trabalho. É assim que moradores da cidade e das regiões vizinhas tentam um emprego, artigo de ouro em tempos de crise. E vale tudo, dizem os desempregados. Aos 27 anos, o técnico em telecomunicações Marcos Vinícios Cabral tentava uma oportunidade de serviços gerais após perder o emprego em fevereiro de 2014. Ele, que mora em Unamar, distrito de Cabo Frio, foi até Rio das Ostras atrás de uma vaga. Cabral já estava em sua segunda tentativa na cidade vizinha.

— Acordei cedo e vim aqui no Centro da Cidadania me cadastrar no Banco de Empregos. A situação está muito ruim. Desde que perdi o emprego, não consegui nada e hoje quero qualquer coisa. Minha esposa também está desempregada. Minha senha é 296. O serviço fecha às 17h, mas tenho fé que vou ser atendido — disse ele, olhando para o relógio que já marcava quase 16h.

Do outro do balcão está Maria do Carmo Teixeira, que coordena o Banco de Empregos, a responsável em dar oportunidade a quem está fora do mercado:

— Hoje, até meio dia, foram mais de 200 pessoas. Em construção civil e petróleo, não tem vaga. Vamos ver se a maré passa. Não esperava que a demanda fosse tão alta. O problema é que muita gente de Rio das Ostras trabalhava em Macaé, que está demitindo. Com isso, somos duplamente afetados. Hoje, 70% das pessoas que vêm aqui são de fora. Já recebemos até haitianos.

A realidade ganha força nos números. Só em Rio das Ostras foram 1.969 empregos formais extintos no ano passado, a maior parte nas áreas de serviços e construção civil. Com placas de “aluga-se” e “vende-se” por toda a parte, a construção civil já tem redução de cerca de 50% da arrecadação através do Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), diz a prefeitura. Novos empreendimentos foram suspensos. É o caso da Facility Realty, que teve de pisar no freio e adiar projetos como a construção de um flat e de um hotel com shopping. Com a crise, ressalta Bianca Carvalho, sócia da Facility Realty, os projetos foram remodelados e a inauguração passou de 2017 para 2019:

—Paramos com a crise. Não é o momento para investimentos como sala comercial e hotelaria. Vamos esperar 2017. O fim do segundo semestre é essencial para saber o que vai acontecer. A gente ia pegar o nicho de hotelaria de eventos, que não é realidade hoje. Estamos adaptando o projeto e criando hospedagem de três estrelas com foco em business puro na Beira Rio — disse Bianca, que tem empreendimentos em Cabo Frio e Geribá, em Búzios.

Menos sondas e plataformas em operação
O retrato da situação. No ponto de ônibus, em Macaé, anúncios de venda de imóveis e de cursos de qualificação - Antonio Scorza / Agência O Globo

No setor de serviços, o comércio e os restaurantes são os mais afetados. Somente na orla da Costa Azul, em Rio das Ostras, mais de cinco restaurantes fecharam as portas nos últimos meses, calcula Airton Cezar de Moura, gerente do Blue Coast. Ele faz um retrato dos novos tempos: da fila na porta para os dois salões com capacidade para 200 pessoas ficou apenas a lembrança. Hoje, só um salão é o suficiente para atender à demanda. Dos dez funcionários, restaram apenas seis.

— A crise da Petrobras afetou todo mundo. Aqui sobraram apenas uns doze restaurantes na orla. O movimento caiu 50% — disse Moura.

Em Macaé, o cenário é semelhante, com o fechamento de mais de oito hotéis desde meados do ano passado, além de dezenas de lojas comerciais que encerraram suas atividades. Na cidade, a expectativa é que este ano seja ainda pior que em 2015, quando 12.168 empregos formais foram extintos. Nas ruas da cidade, a crise no setor imobiliário também revela seu lado perverso com o adiamento dos lançamentos e suas 1.789 vagas formais fechadas no ano passado. Na Agência de Trabalho e Educação Profissional da cidade, o número de vagas caiu de 1.800 para 300 por mês neste ano. Segundo Amaro Alves, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Offshore do Brasil (Sinditob), foram feitas 1.054 demissões entre janeiro e fevereiro deste ano em Macaé. Em 2015, foram 16.909 homologações.

— Hoje, empresas que tinham entre 500 e 600 funcionários na área administrativa reduziram para um ou dois. O número de sondas e plataformas em operação caiu de 57 para 13 somente entre as empresas Brasdril, Ensco, Transocean, Etesco, Schahin e Paragon. Vai ter mais demissão. A cidade não se diversificou e não investiu em turismo, pesca e agricultura. Agora sofre com os efeitos da Lava-Jato — afirmou Alves.

Em Campos, os reflexos da crise se estendem por toda cidade. No Centro, a Rua João Pessoa coleciona uma série de lojas fechadas. Entre os diversos bairros da cidade, como na região da Pelinca, que concentra cerca de 100 edifícios, há construções imobiliárias canceladas e obras inacabadas. E o resultado disso se faz perceber entre os moradores: das 5.027 vagas formais extintas no ano passado, a construção civil somou 28% (1.440) do total, mais que a indústria de transformação, com 27,8% (1.399). Como reflexo, a arrecadação de tributos municipais como ITBI e ISS caiu 20% no ano passado.

Na área industrial, também foram registrados grandes cortes. A Schulz, fabricante de tubos e conexões de aço para empresas que prestam serviço para a Petrobras, que estava localizada no distrito industrial de Campos, encerrou suas atividades no fim do ano passado, demitindo 300 pessoas. Procurada, a companhia não quis falar. João Paulo da Costa Cunha, presidente do Sindicato de Metalúrgicos de Campos, Quissamã e São João da Barra, lembra que de março do ano passado a fevereiro deste ano já foram 1.800 homologações:

— Perdemos 40% de nossa base. Muitas empresas estão envolvidas na Operação Lava-jato.

Barra do Furado, complexo milionário parado
As obras do complexo de Barra do Furado estão paralisadas desde meados de 2014 - Antonio Scorza / Agência O Globo

Luiz Claudio Soares e Eliseu Monteiro foram apenas dois das centenas de trabalhadores que perderam o emprego na Schulz. Eles lembram que os cortes começaram no início de 2015 até o fechamento total da unidade em outubro. E ambos colecionam histórias tristes. Soares tentou ser sócio de uma empresa de venda de galão de água, mas levou o cano do parceiro. Monteiro virou vendedor de cosméticos, mas não tem tido sucesso.

— Está tudo parado. Não tem emprego em lugar nenhum. A gente procura se reinventar, mas está difícil — queixa-se Soares.

Quissamã, uma cidade com apenas 22.700 habitantes, viu fechar no ano passado 53 estabelecimentos comerciais. A promessa de criar quatro mil empregos está no papel. Desde meados de 2014, as obras de um dos principais projetos da região, o Complexo Logístico Farol/Barra do Furado, pararam. E até hoje o pouco que foi feito vai sendo corroído pela maresia. Orçado em cerca de meio bilhão de reais, o complexo, que sofreu mudanças de projeto ao longo dos últimos anos, está hoje no meio de vários impasses. As prefeituras de Quissamã e Campos não estão investindo mais recursos desde que o governo do Estado do Rio e a União decidiram suspender o financiamento. Com isso, as licenças ambientais não foram renovadas, o que pode atrasar ainda mais o projeto, que hoje já não tem data para terminar.

Além disso, há outro problema, segundo as prefeituras: o consórcio responsável pelas obras é formado por empresas envolvidas na Operação Lava-Jato, como Odebrecht, OAS e Queiroz Galvão.

— Esse empreendimento iria elevar a arrecadação de ISS em Quissamã. O sonho é interromper esse contrato com o consórcio atual e refazer a licitação — disse uma fonte ligada à prefeitura.

Enquanto o imbróglio não se resolve, a população sofre com o desemprego.